Algumas palavras rápidas, mais devido ao início de uma irritaçãozinha que começa a surgir com essa questão do ‘PIG’ do quê a algum interesse verdadeiro na questão. Aliás, uma questão que me parece completamente virtual, um delírio coletivo de blogueiros intoxicados pelo constante afago das massas de bajuladores que lotam as caixas de comentários dos “grandes” blogs da esquerda (não que os indivíduos que comentam nos blogs à direita não sejam muito piores e, francamente, fontes generosas de Vergonha Alheia existencial; mas como os donos de tais blogs costumam estar vinculados à grande imprensa, não haveria como uma reação deste porte surgir naquelas bandas). Interessante notar o quanto esse ataque à imprensa está vinculado ao pequeno-petismo, justamente aqueles setores do partido que ainda precisam acreditar que continuam a ser parte da esquerda e, como tal, necessitam de algum grande e mau opressor contra o qual se rebelar e a quem possam apontar como o grande criador dos males do mundo – você sabe, velhos hábitos demoram a morrer e tudo o mais.
Como já não há mais um governo representante da zelite branca e burguesa (ou, como o governo passou às mãos de uma zelite amiga…), qual seria o outro “Poder” comparável àqueles que estão sob o controle do petismo? E aquele que, justamente, é o único com poder de fogo suficiente para incomodar o governo, de tempos em tempos?
Recentemente, o Idelber disse em seu blog (www.idelberavelar.com , um excelente lugar para ver o que a “esquerda” brasileira mais rasteira pensa – aquele setorzinho do PT que se acha equivalente aos Democratas de Obama) algo do tipo “a derrubada da Grande Imprensa deveria ser a grande prioridade da Esquerda brasileira”, num post delirante onde tentava defender uma união de PSTU/PSOL/PC com o PT, PMDB e o resto da escória governista. Olha, talvez essa causa seja a mais relevante para a esquerda brasileira de Tulane University, mas pelo que vejo dos meus amigos de extrema esquerda, a prioridade desta continua ser a lutar contra a exploração das camadas mais frágeis da sociedade; a luta pela educação destas camadas, buscando fazê-los atingir uma consciência de classe; a defesa dos direitos dos trabalhadores e a necessidade da tomada de ações que, verdadeiramente, distribuam a renda no país. Causas, na minha pobre acepção reformista e centro-esquerdista, muito mais nobres do que a derrubada do malvado PIG.
Ora, a imprensa brasileira é péssima. Não vou argumentar quanto a isso – quem duvidar, abra uma revista semanal e veja com seus próprios olhos. Sim, nem de longe ela é tão virginal e bem-intencionada quanto quer parecer (fair & balenced my ass); e, sim, não é raro que role uma promiscuidade nojenta entre a imprensa e o grande capital ou com detentores do poder político. Ainda assim, a Folha de São Paulo, nos seus momentos mais serristas, é muito mais isenta do quê o blog do Idelber ou do Nassif ou qualquer outra fonte do jornalismo alternativo a qualquer tempo – isso é óbvio, e sinceramente, quem discordar disso perdeu a razoabilidade há um bom tempo. A imprensa não manipula o povo a ser conservador. A imprensa é conservadora (e medíocre) porque é isso que o povo é e isso o que ele quer ler. Muito antes da Veja se tornar o lixo que é hoje, sua massa de leitores já era composta por proto-mainardis. Ainda assim, o terrível grupo Abril publica a Piauí, uma revista cuja qualidade, sinceramente, não encontra paralelos na blogosfera (e, olha só, ela é apenas uma cópia da new yorker).
Tudo isso apenas para dizer que, sim, a imprensa é terrível; um mal necessário – e as alternativas propostas (blogs) são bem piores.
Haveria um post aqui, mas o tempo particularmente ruim de final de semestre (tempestades de provas pontuadas com a eventual geada de trabalhos) acabou intimidando-o tanto que ele preferiu ficar em casa, vendo pornografia na internet e revendo Jogos Mortais, todos, em sequência. Tadinho, né?
2. Young Adult Friction
Maio 25, 2009
No fundo do ônibus, sentados no lado direito.
Ele, sonolento, com a cabeça encostada no vidro, admira a feiúra das pessoas do lado de fora - aquela familiar mistura de simpatia e nojo das pessoas que combinam sorrisos desdentados com olhares inocentes, das mulheres gordas equilibrando trouxas de roupa na cabeça, das crianças de rua trocando xingamentos vulgares demais para suas idades; ela, com as mãos entrelaçadas às dele, irrita-se com a música popular que permeia o ônibus, com o calor claustrofóbico desta cidade – mas, acima de tudo, sufoca-lhe a melancolia tosca presente de forma distinta, como variações de um mesmo tema, nos rostos dos outros passageiros.
A cada rua, suas memórias criam encenações fantasmagóricas das situações ali vividas, endeusando-as ou aumentando seus tons dramáticos.A tragédia de viver numa cidade pequena é a impossibilidade de encontrar um cenário inédito, uma rua que não traga a lembrança de um beijo apaixonado, um trajeto que já não tenham percorrido cantando juntos preciosas porcarias pop, a impossibilidade de encontrar uma vista que possa lhes despertar assombro verdadeiro. A cacofonia do passado impede-os de conseguir dizer algo realmente novo – a banalidade das palavras, amarrando-os confortavelmente a personagens num roteiro preestabelecido.
Ainda assim, as mãos dadas, a familiaridade gostosa de conhecer bem a textura daqueles dedos, as formas daquela mão que não a sua mas é, verdadeiramente, sua; aquela mão à qual a sua se lança num movimento já inconsciente, como se ali fosse seu lugar. E se as palavras se tornam cada vez mais banais, os olhares trocados em silêncio ganham eloquência.
Cansado, ele pende a cabeça para o lado oposto e a apóia no ombro dela, como tantas vezes já fizera. E a certeza que ainda o fará por muitas vezes é tudo que precisa para levar a vida adiante.
karol. diz: odeio esse calor, odeio essa cidade.
karol. diz: que bunda.
karol. diz: vou criar uma comunidade: queria passar férias onde eu moro.
karol. diz: contra aquela: eu moro onde você passa férias.
karol. diz: cidade cu.
was an honest man. diz: realmente.
was an honest man. diz: sabe, amo mais locais puramente ficcionais que minha cidade.
was an honest man. diz: me ofende mais se alguém, por exemplo, disser que Midgard é um lugar pobre do que falarem isso de maceió
was an honest man. diz: bem mais.
karol. diz: eu adoraria qualquer local que não fosse, primeiro, tão quente quanto aqui.
karol. diz: mermão, tu tá falando da Terra-média?
was an honest man. diz: não, mas a Terra Média é muito mais bonita que maceió : }
was an honest man. diz: lutaria numa guerra pela terra-média, karol. iria oferecer minha espada à sociedade do anel e tudo, morrer lutando contra o Sauron.
karol. diz: e teria pés enormes.
was an honest man. diz: Mai maceió? se os judeus quiserem outro pedaço de terra quente pra roubar, podem levar.
da Política
Maio 2, 2009
Nunca acreditei em Esquerda ou Direita. Não na forma em que se apresenta hoje, dentro do ambiente político – pacotes herméticos de crenças e convicções a que você deve subscrever, um kit de ideais políticos convenientemente preparado para você, basta assinar na linha pontilhada.
Me parece algo sem sentido – e, ainda assim, é tudo que há no debate político brasileiro: briga de torcidas – e, nessa metáfora, as posições políticas são as cores do uniforme.
Exemplificando: a Esquerda defende o aborto e é contra as privatizações, a Direita é o mesmo com sinais inversos – agora, me digam: O que uma coisa tem a ver com a outra? O que o Aborto tem que o vincula à crença de que as privatizações são coisas malignas, praticamente crimes, ao roubarem do povo o que é seu por direito? Por que nunca se vê um esquerdista ser contra o Aborto ou um direitista defendê-lo? O que Marx tem a ver com a descriminalização da maconha?
Concordo com as privatizações que já ocorreram, entendo que foi o curso correto a ser tomado à época e que os serviços oferecidos à população estão bem melhores do que estariam se o setor de telecomunicações continuasse sob a égide da administração pública. Sim, muito provavelmente as empresas foram vendidas aquém de seu valor real, dinheiro público foi desviado e a corrupção correu solta – mas, for fuck’s sake, me digam onde no Brasil não há corrupção? Certamente a corrupção que houve foi menor do que a que havia dentro das empresas públicas à época de sua privatização. Não estou fazendo uma apologia à corrupção – se ocorreu, que sejam investigados e punidos os responsáveis. Mas o fato de ter havido corrupção não altera a realidade de que as privatizações foram, em sua maioria, benéficas.O que não quer dizer que futuras privatizações seriam inerentemente boas, como defendem os apologistas do Estado Mínimo – apesar de andarem um tanto tímidos desde a eclosão da crise.
E, quanto ao aborto, sou completamente contrário – acho um absurdo, algo que eu jamais aceitaria que uma namorada ou filha minha fizesse, mas, apesar de vê-lo como um ato plenamente amoral, ainda assim sou favorável à sua descriminalização. O quê de bom pode haver ao mandar uma mulher e/ou um médico para a prisão devido ao aborto? Que risco eles representam para a sociedade? O que a sociedade ganha com a criminalização desse ato, que é largamente aceito, e ocorre livremente? Ao invés de uma lei quase totalmente ineficaz, não seria melhor para a prevenção desse ato informar as mulheres – primeiro, dos métodos para evitar a gravidez e depois, do quê significa a sua interrupção, os males que o feto sofre, e das alternativas – melhores tanto para a mulher quanto para o feto – ao aborto?
O que essas opiniões fazem de mim? Um pária político, detestado por ambos os lados. Não apenas essas, mas inúmeras outras opiniões que não condizem com a visão de mundo maniqueísta defendidas tanto à esquerda quanto à direita.
Bem, dito isso, ora de contradizê-lo -
Simpatizo pela Esquerda. E, sinceramente, não entendo como alguém pode declarar aos gritos seu apoio pela Direita, como o fazem tantos em revistas, jornais e blogs mundo afora.
Vamos por parte – simpatizo com a Esquerda não pelo conjunto de idéias, hermeticamente fechadas, que ela defende hoje, do feminismo ao socialismo. Sim, concordo com muitas destas – mas também concordo com algumas à Direita. Simpatizo pela Esquerda porque, no Esquema Geral das Coisas, vejo que o seu Espírito e sua contribuição à História são muito mais benéficos do que a corrente contrária.
Sejamos francos: o que a Esquerda tem buscado, desde sempre, apesar de ter cometido inúmeros erros pelo caminho, é criar um mundo melhor para a Humanidade. Sempre foi a Esquerda quem defendeu os direitos fundamentais, quem declarou sua existência e lutou para mantê-los: Liberdade, Democracia (e continua a lutar pelo seu aprimoramento, entre aqueles que, como eu, entendem que o atual estado desta, representado pelo Sufrágio Universal, ainda é precário; chegará um tempo em que ela será exercida minimamente pela via Representativa e majoritariamente mediante participação popular direta), pacifismo, humanismo, condições mínimas no ambiente de trabalho e os direitos dos trabalhadores, enfim… A grande maioria das conquistas humanas no sentido de um mundo mais justo foram trazidas pelo pensamento à esquerda.
Resumindo: A Esquerda quer um mundo mais justo, com as riquezas distribuídas de forma mais justa e igualitária, com acesso à educação e onde pessoas não morram por falta de acesso à comida ou aos tratamentos de saúde mais básicos.
Já a filosofia da Direita é basicamente não querer que o Estado ponha a mão em seu bolso. E, sinceramente, tudo bem a pessoa defender e lutar por isso, mas sair por ai gritando como se o direito a não ter a mão do Estado no seu bolso fosse a coisa mais sagrada do mundo é um tanto ridículo (leiam algum dos textos do Olavo de Carvalho e vejam ao ponto em que pode chegar o nível de ridículo dessa gente). A Direita acha o Bolsa Família, uma miséria que tem um impacto mínimo no Orçamento da União, um absurdo e que o dinheiro gasto melhorando a qualidade de vida dessa gente miséravel seria melhor gasto em mais estradas e viadutos superfaturados, ou então no seu próprio bolso, aumentando em 0,00000000009% seu poder econômico para gastar em porcarias.
Dito isto, me parece evidente qual a ideologia é a mais correta – a não ser, é claro, que você esteja com o bolso cheio de dinheiro e realmente precise de um jatinho novo.
E, depois de tudo, no furor da Vitória, as palavras me escapam por entre os dedos, preguiçosas e sorridentes.
Talvez o único meio capaz de expressar esse sentimento seja a celebração em meio ao álcool e aos amigos, sob o céu noturno de minha cidade : }
Há uma sensação subtendida nisso tudo, uma satisfação contida que lhe acompanha por todo o dia, que tinge com novos tons aquelas longas tardes batalhando por um resultado tão distante quanto improvável – aquela velha sensação da infância de resolver um quebra-cabeças especialmente complicado, multiplicada pela consciência da impossibilidade trazida pelo pessimismo da maturidade.
É diferente, isso. Diferente de passar no vestibular. Até porque, não passei ainda. Mas… cheguei mais longe do que acreditava. Isso tem que valer por algo. Aliás, eu não queria passar no vestibular; melhor, queria passar no vestibular não pelo quê isso significa – cursar uma universidade; desejava passar apenas por saber que teria que continuar tentando até passar.
Enfim, estou um pouco feliz hoje. Ao menos isso eu já conquistei.
“MOSCOU_10 DE JANEIRO, -15ºC_Hoje foi nossa folga e eu só saí do alojamento à noite. Fomos assistir a Dom Quixote, um musical que beira o cafona, mas emociona bastante. O teatro está para o russo como o futebol para o brasileiro. Se houver três montagens de A Gaivota na mesma cidade, as três estarão lotadas durante os anos que ficarem em cartaz. A hora do agradecimento é emocionante: o público bate palmas ritmadas, as pessoas entregam flores e bombons para seus atores prediletos e acontece uma comunhão mágica entre os artistas e a platéia (…)”
São coisas assim, como esse trecho retirado da tradicional sessão “diário” da Piauí, que me servem como indicadores, de que alguma, eu acabei por nascer num lugar completamente errado.