da Política

maio 2, 2009

Nunca acreditei em Esquerda ou Direita. Não na forma em que se apresenta hoje, dentro do ambiente político – pacotes herméticos de crenças e convicções a que você deve subscrever, um kit de ideais políticos convenientemente preparado para você, basta assinar na linha pontilhada.

Me parece algo sem sentido – e, ainda assim, é tudo que há no debate político brasileiro: briga de torcidas – e, nessa metáfora, as posições políticas são as cores do uniforme.

Exemplificando: a Esquerda defende o aborto e é contra as privatizações, a Direita é o mesmo com sinais inversos – agora, me digam: O que uma coisa tem a ver com a outra? O que o Aborto tem que o vincula à crença de que as privatizações são coisas malignas, praticamente crimes, ao roubarem do povo o que é seu por direito? Por que nunca se vê um esquerdista ser contra o Aborto ou um direitista defendê-lo? O que Marx tem a ver com a descriminalização da maconha?

Concordo com as privatizações que já ocorreram, entendo que foi o curso correto a ser tomado à época e que os serviços oferecidos à população estão bem melhores do que estariam se o setor de telecomunicações continuasse sob a égide da administração pública. Sim, muito provavelmente as empresas foram vendidas aquém de seu valor real, dinheiro público foi desviado e a corrupção correu solta – mas, for fuck’s sake, me digam onde no Brasil não há corrupção? Certamente a corrupção que houve foi menor do que a que havia dentro das empresas públicas à época de sua privatização. Não estou fazendo uma apologia à corrupção – se ocorreu, que sejam investigados e punidos os responsáveis. Mas o fato de ter havido corrupção não altera a realidade de que as privatizações foram, em sua maioria, benéficas.O que não quer dizer que futuras privatizações seriam inerentemente boas, como defendem os apologistas do Estado Mínimo – apesar de andarem um tanto tímidos desde a eclosão da crise.

E, quanto ao aborto, sou completamente contrário – acho um absurdo, algo que eu jamais aceitaria que uma namorada ou filha minha fizesse, mas, apesar de vê-lo como um ato plenamente amoral, ainda assim sou favorável à sua descriminalização. O quê de bom pode haver ao mandar uma mulher e/ou um médico para a prisão devido ao aborto? Que risco eles representam para a sociedade? O que a sociedade ganha com a criminalização desse ato, que é largamente aceito, e ocorre livremente? Ao invés de uma lei quase totalmente ineficaz, não seria melhor para a prevenção desse ato informar as mulheres – primeiro, dos métodos para evitar a gravidez e depois, do quê significa a sua interrupção, os males que o feto sofre, e das alternativas – melhores tanto para a mulher quanto para o feto – ao aborto?

O que essas opiniões fazem de mim? Um pária político, detestado por ambos os lados. Não apenas essas, mas inúmeras outras opiniões que não condizem com a visão de mundo maniqueísta defendidas tanto à esquerda quanto à direita.

Bem, dito isso, ora de contradizê-lo -

Simpatizo pela Esquerda. E, sinceramente, não entendo como alguém pode declarar aos gritos seu apoio pela Direita, como o fazem tantos em revistas, jornais e blogs mundo afora.

Vamos por parte – simpatizo com a Esquerda não pelo conjunto de idéias, hermeticamente fechadas, que ela defende hoje, do feminismo ao socialismo. Sim, concordo com muitas destas – mas também concordo com algumas à Direita. Simpatizo pela Esquerda porque, no Esquema Geral das Coisas, vejo que o seu Espírito e sua contribuição à História são muito mais benéficos do que a corrente contrária.

Sejamos francos: o que a Esquerda tem buscado, desde sempre, apesar de ter cometido inúmeros erros pelo caminho, é criar um mundo melhor para a Humanidade. Sempre foi a Esquerda quem defendeu os direitos fundamentais, quem declarou sua existência e lutou para mantê-los: Liberdade, Democracia (e continua a lutar pelo seu aprimoramento, entre aqueles que, como eu, entendem que o atual estado desta, representado pelo Sufrágio Universal, ainda é precário; chegará um tempo em que ela será exercida minimamente pela via Representativa e majoritariamente mediante participação popular direta), pacifismo, humanismo, condições mínimas no ambiente de trabalho e os direitos dos trabalhadores, enfim… A grande maioria das conquistas humanas no sentido de um mundo mais justo foram trazidas pelo pensamento à esquerda.

Resumindo: A Esquerda quer um mundo mais justo, com as riquezas distribuídas de forma mais justa e igualitária, com acesso à educação e onde pessoas não morram por falta de acesso à comida ou aos tratamentos de saúde mais básicos.

Já a filosofia da Direita é basicamente não querer que o Estado ponha a mão em seu bolso. E, sinceramente, tudo bem a pessoa defender e lutar por isso, mas sair por ai gritando como se o direito a não ter a mão do Estado no seu bolso fosse a coisa mais sagrada do mundo é um tanto ridículo (leiam algum dos textos do Olavo de Carvalho e vejam ao ponto em que pode chegar o nível de ridículo dessa gente). A Direita acha o Bolsa Família, uma miséria que tem um impacto mínimo no Orçamento da União, um absurdo e que o dinheiro gasto melhorando a qualidade de vida dessa gente miséravel seria melhor gasto em mais estradas e viadutos superfaturados, ou então no seu próprio bolso, aumentando em 0,00000000009% seu poder econômico para gastar em porcarias.

Dito isto, me parece evidente qual a ideologia é a mais correta – a não ser, é claro, que você esteja com o bolso cheio de dinheiro e realmente precise de um jatinho novo.

4 Respostas para “da Política”

  1. K. disse

    Olhe bem, já cansei de repitir que concordo com o que você acha – parece um argumento de acomodada, ou algo do tipo. Mas eu realmente concordo com tudo que foi dito nesse texto.

    Se tem coisa que eu não suporto é a maneira maniqueísta que as pessoas insistem em enxergar as coisas. Como diria nosso professor Betão, o homem é um universo, não existe bom ou ruim, existe o homem.

    Parar com esse argumentos de esquerda é malvada, ou direita é bicho ruim é um grande passo pra sair dessa mormaço político.

  2. Eli disse

    Igor Frassy, você não tinha me dito que tem um blog. E um blog legal, por sinal. Gostei do texto. Como alguém declaradamente de esquerda até me identifiquei um pouco. Claro que discordo de algumas coisas. Por exemplo, realmente Marx tem pouco a ver com a liberação da maconha. Mas ao mesmo tempo não acho que absolutamente todas as posições da esquerda tenham que ser fundamentadas em Marx diretamente. E o seu próprio texto parece ir no mesmo caminho.

    Mas acho que tem algo de muito bom no que você está dizendo. Realmente a esquerda precisa rever sua postura filosófica. Essa coisa de assinar na linha pontilhada e receber o “kit revolução” é uma herança nefasta do stalinismo. Algo como um efeito colateral da “revolução que deu certo”, a Russa… e coloque aspas nesse “deu certo”…

    Resgatar a forma criativa de ver o mundo que a esquerda cultivava é uma tarefa importante hoje… fugir dos esquemas é a primeira coisa. Mas isso signifca resgatar um método criterioso de análise e não cair num ecletismo barato que geralmente acaba servindo pra direita. Mas isso é outra coisa.

    Gostei do texto, até aumentou minha vontade de voltar a escrever pra o Quixote, que tá parada há meses, não por opção, mas por condições. Só tome cuidado quando ler Habermas… ele tá bem próximo do que você está dizendo aqui, e cada vez mais à direita.

    Abraços

    • Biggles disse

      Wow, cara. Como tu encontrou esse blog? Enfim, esse texto foi mais um momento de exasperação devido à pobreza do debate político brasileiro do que qualquer outra coisa. Adorei seu comentário, bem pensado, crítico e provocador. Quanto ao seu blog, é, notei que você o deixou meio às mosas, o que é uma pena, porque os posts eram excelentes (adorei o do Malvados ;D)

  3. Eli disse

    Haehaeha! Encontrei sim! E o Quixote ficou às moscas mesmo… mas encontrar teu blog foi a gota d’água pra pôr aquela vontade de voltar em prática! hehaea! Estamos de volta ao dorso do Roncinante, meu caro!

    Abraço!

    ps.: e seu blog tem um link lá…

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